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A saúde de uma cidade que envelhece rápido demais

Como São Bernardo do Campo, capital histórica do automóvel no Brasil, tenta reorganizar hospitais, postos e especialistas para dar conta de uma população que vive mais, adoece de forma diferente e ainda enfrenta desigualdades profundas dentro dos próprios limites da cidade

SPASS SBC

8/25/202652 min read

Há sessenta anos, quando as primeiras linhas de montagem da Volkswagen, da Ford e da Mercedes-Benz começaram a funcionar às margens da Via Anchieta, São Bernardo do Campo construiu sua identidade em torno de um tipo de corpo: o corpo jovem, migrante, operário, que chegava do interior de São Paulo e do Nordeste para trabalhar nas fábricas do ABC Paulista. Esse corpo adoecia de acidente de trabalho, de doença infecciosa, de partos mal assistidos. Era a saúde de uma cidade que nascia.

Sessenta anos depois, o retrato mudou por completo — e a cidade ainda está processando essa mudança. Em 2022, o Censo do IBGE mostrou que quase uma em cada cinco pessoas em São Bernardo do Campo já tem 60 anos ou mais: 154.670 moradores, ou 19% da população, contra 10,2% em 2010<cite index="7-1">O Censo de 2022 mostrou aspectos da população de São Bernardo do Campo, com destaque para os moradores de 60 anos ou mais, que agora representam 19% dos habitantes, ou seja, cerca de 154.670 pessoas.</cite>. Na mesma década em que a cidade envelheceu, as causas de morte também trocaram de perfil: doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e transtornos mentais ocupam hoje o espaço que antes era dividido com doenças infecciosas e mortalidade materno-infantil.

Esta reportagem tentou responder a uma pergunta simples de formular e difícil de responder com precisão: qual é, de fato, o panorama da saúde em São Bernardo do Campo hoje? Para isso, foram consultados dados públicos do IBGE, da Fundação Seade, do Ministério da Saúde, do DATASUS, da ANS, do CNES, de estudos científicos indexados e de canais oficiais da Prefeitura de São Bernardo do Campo e da Fundação do ABC (FUABC), que administra parte da rede hospitalar municipal em parceria com o poder público. Em alguns pontos, especialmente indicadores muito específicos em nível municipal — como tempo médio de espera por consulta ou exame —, não existem bases públicas consolidadas e atualizadas; nesses casos, a reportagem informa a limitação em vez de estimar números.

O que os dados mostram, de forma consistente, é uma cidade que reúne características de grande centro urbano brasileiro: uma rede de saúde relativamente robusta para os padrões nacionais, um parque industrial e de serviços que sustenta arrecadação municipal expressiva, e ao mesmo tempo desafios crescentes ligados ao envelhecimento, às doenças crônicas, à saúde mental e à desigualdade de acesso entre bairros centrais e periféricos.

1. Uma cidade industrial com novos desafios de saúde

São Bernardo do Campo é, hoje, o maior município do Grande ABC Paulista e um dos mais relevantes economicamente do país. O Censo Demográfico de 2022 registrou 810.729 habitantes<cite index="6-1">revelando que a população de São Bernardo do Campo atingiu a cifra de 810729 habitantes, indicando um crescimento total de 5,6% em relação ao recenseamento anterior, realizado em 2010</cite>, e as estimativas do próprio IBGE para 2025 já apontam 841.154 pessoas vivendo no município, distribuídas por uma área de 408,234 km² — a maior parte dela, note-se, urbana, já que boa parcela do território é ocupada pela represa Billings. A densidade demográfica gira em torno de 1.979,65 habitantes por km² (IBGE, 2022).

O ritmo de crescimento, porém, desacelerou muito. Segundo levantamento da própria Prefeitura a partir dos censos do IBGE, a taxa de crescimento anual da população nos últimos doze anos foi de apenas 0,48%<cite index="6-1">A taxa anual de crescimento dos últimos 12 anos foi de apenas 0,48 %, a menor registrada desde o século 19, no período anterior ao estabelecimento do Núcleo colonial São Bernardo.</cite> — a menor da série histórica da cidade. Isso não é um dado neutro do ponto de vista sanitário: uma população que cresce pouco, mas envelhece rápido, é exatamente o cenário que pressiona sistemas de saúde desenhados décadas atrás para outro perfil demográfico.

A cidade carrega a marca da industrialização acelerada do pós-guerra. Foi em São Bernardo que se instalaram as primeiras montadoras do país — Volkswagen, Ford, Scania, Mercedes-Benz, Karmann-Ghia — ao lado de indústrias químicas e de bens de consumo como Basf, Suvinil e Colgate-Palmolive/Unilever. Esse legado ainda define a economia local: em 2023, o PIB per capita do município foi de R$ 88.766,77 (IBGE), e a cidade figura entre as de maior Produto Interno Bruto do estado de São Paulo — a maior colaboradora para o PIB nacional entre as sete cidades do Grande ABC, tendo injetado R$ 58,2 bilhões na economia brasileira somente em 2021, segundo dados do IBGE divulgados pela própria Prefeitura<cite index="76-1">Somente em 2021, São Bernardo injetou R$ 58,2 bilhões na economia brasileira, sendo a maior fatia oriunda do setor de serviços: R$ 29,6 bilhões; seguido pela indústria, com R$ 13,2 bilhões; e pela agropecuária (R$ 11,1 bilhões).</cite>. A cidade também viveu o outro lado dessa história industrial: o fechamento da fábrica da Ford, em 2019, marcou um símbolo de desindustrialização parcial que pesquisadores relacionam à mudança nas taxas de crescimento populacional e de emprego industrial na região.

Essa transição — de polo operário jovem para cidade de serviços que envelhece — é o pano de fundo para tudo o que vem a seguir. Os problemas de saúde típicos de grandes áreas urbanas brasileiras já se instalaram por aqui: hipertensão, diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, câncer, transtornos respiratórios e sofrimento psíquico dividem espaço, na agenda da Secretaria Municipal de Saúde, com a necessidade permanente de ampliar o número de especialistas e exames disponíveis à população.

2. Quem são os pacientes de São Bernardo do Campo?

Entender a saúde de uma cidade começa por entender quem a habita. Em São Bernardo, a pirâmide etária mudou de formato nas últimas duas décadas. Segundo a comparação entre os Censos de 2010 e 2022, divulgada pela imprensa local com base em dados do IBGE, a fatia de crianças e adolescentes (0 a 14 anos) recuou de 20,7% da população em 2010 para uma proporção bem menor em 2022, enquanto o grupo de 60 anos ou mais quase dobrou sua participação, de 10,2% para 19%<cite index="7-1">Comparando com 2010, a estrutura demográfica de São Bernardo do Campo era significativamente diferente. Naquela época, pessoas com 60 anos ou mais compunham 10,2% da população total, segundo o IBGE.</cite>. O mesmo levantamento aponta um "pico demográfico" na faixa dos 40 anos — ou seja, a geração que hoje está na meia-idade tende a puxar, nas próximas duas décadas, um novo salto na proporção de idosos.

Essa transição demográfica anda lado a lado com a chamada transição epidemiológica: a mudança do perfil de adoecimento e morte de uma população, de doenças infecciosas e desnutrição para doenças crônicas não transmissíveis (DCNT). Não há, nas bases públicas consultadas, uma consolidação de causas de morte específica e atualizada apenas para o município de São Bernardo do Campo — o SIM/DATASUS permite esse recorte, mas exige tabulação direta na plataforma do Ministério da Saúde, não publicada de forma consolidada por fontes secundárias no momento desta apuração. Por isso, esta reportagem recorre aos dados estaduais e nacionais mais recentes como referência de tendência, deixando claro que se trata de contexto regional e nacional, não de números fechados da cidade.

Nesse contexto mais amplo, as doenças cardiovasculares são, disparadamente, a principal causa de morte no Brasil: segundo o Ministério da Saúde, elas respondem por cerca de 30% dos óbitos anuais no país<cite index="29-1">Segundo dados do Ministério da Saúde, as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes no Brasil, representando aproximadamente 30% dos óbitos ano.</cite>, à frente do câncer, que responde por cerca de 16% das mortes por doenças não transmissíveis, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia<cite index="30-1">Distribuição similar é observada no Brasil, onde 72% das mortes resultam de DNC, sendo 30% devidas a DCV e 16% a neoplasias</cite>. Em 2022, o Brasil registrou cerca de 400 mil óbitos por causas cardiovasculares, segundo dados do DATASUS compilados pelo Ministério da Saúde<cite index="35-1">um conjunto de 18 doenças cardiovasculares tirou a vida de aproximadamente 400 mil brasileiros em 2022</cite>. Como São Bernardo tem hoje quase um quinto da população com 60 anos ou mais — faixa em que a mortalidade cardiovascular é mais concentrada — é razoável presumir, com base no padrão nacional e estadual, que essas doenças também ocupem posição central no perfil de adoecimento da cidade, ainda que a ausência de dado municipal consolidado impeça uma afirmação numérica exata.

O que a cidade documenta melhor, por outro lado, são os indicadores de saúde materno-infantil, historicamente monitorados de perto pela gestão municipal. A taxa de mortalidade infantil de São Bernardo do Campo era de 8,62 óbitos por mil nascidos vivos em 2025, segundo o IBGE<cite index="2-1">Infant Mortality · 8,62 deaths per 1,000 live births [2025]</cite> — abaixo da média histórica nacional, embora ainda distante de zero. Já a mortalidade materna, indicador considerado um dos mais sensíveis para aferir a qualidade da assistência ao parto, teve resultado inédito em 2025: a rede municipal fechou o ano sem nenhum registro de morte materna, segundo anúncio da Secretaria de Saúde em parceria com a Fundação do ABC, que administra o Hospital da Mulher<cite index="40-1">A atuação articulada entre a Atenção Básica e o Hospital da Mulher contribuiu de forma significativa para a redução da mortalidade materna por causas evitáveis, reforçando a segurança, a qualidade e a humanização da assistência prestada às gestantes e puérperas</cite>.

3. Como funciona o SUS em São Bernardo do Campo?

A porta de entrada do Sistema Único de Saúde na cidade são as Unidades Básicas de Saúde (UBS), organizadas majoritariamente sob o modelo da Estratégia Saúde da Família (ESF). Segundo o portal oficial da Secretaria de Saúde, a cidade conta atualmente com 34 UBS<cite index="17-1">Atualmente São Bernardo do Campo é contemplado com 34 unidades de UBS.</cite>, número que material mais recente da própria Prefeitura, associado ao lançamento de um edital de residência médica em outubro de 2025, atualiza para 35 UBS, além de duas policlínicas, dez UPAs e um Pronto Atendimento, nove CAPS e uma Clínica Municipal da Visão<cite index="146-1">por contar com uma rede de saúde robusta, com quatro hospitais, duas policlínicas, 35 UBSs, dez UPAs e um PA (Pronto Atendimento), nove CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e uma Clínica Municipal da Visão</cite>. A diferença entre as duas contagens — de 34 para 35 UBS e de nove para dez UPAs — reflete a expansão recente da rede, e não uma inconsistência dos dados: cidades que investem em atenção básica tendem a inaugurar novas unidades ano a ano, o que torna qualquer "fotografia" rapidamente desatualizada.

A cobertura da Estratégia Saúde da Família é considerada alta para os padrões de uma cidade grande: um levantamento baseado em dados oficiais aponta 196 equipes de Saúde da Família (eSF) em atuação, cobrindo cerca de 84,8% da população estimada de 841.154 habitantes<cite index="12-1">Através de suas 196 equipes da Saúde da Família (eSF), a cidade atinge uma cobertura de acompanhamento do SUS de aproximadamente 84,8%.</cite>. Para efeito de comparação histórica, a própria Prefeitura relata que, em 2008, a cidade tinha apenas 16 equipes de Saúde da Família — o salto para a casa das centenas de equipes, ocorrido ao longo de mais de uma década, representa uma das mudanças estruturais mais significativas da atenção básica local<cite index="15-1">Houve a expansão da Estratégia de Saúde da Família, que, em 2008, dispunha de apenas 16 equipes. Hoje São Bernardo conta com 133 equipes de Saúde da Família, que respondem pelos cuidados de cerca de 600 mil pessoas cadastradas na ESF.</cite> (esse relato de 133 equipes é de uma publicação anterior da própria Secretaria; o número mais recente, de 196 equipes, indica que a expansão continuou nos anos seguintes).

Na teoria, a jornada do paciente dentro do SUS municipal segue um fluxo relativamente simples: o morador procura a UBS de referência do seu território para consultas de rotina, pré-natal, vacinação e retirada de medicamentos básicos; casos que exigem avaliação especializada são encaminhados, via regulação — a Central Municipal de Regulação, mencionada na estrutura da Secretaria de Saúde —, para especialistas, exames ou, se necessário, para a rede hospitalar. Casos de urgência e emergência não passam pela UBS: são direcionados diretamente às Unidades de Pronto Atendimento (UPA) ou, em situações de risco de morte, ao SAMU 192, que integra a Rede de Atenção às Urgências do município junto com as UPAs<cite index="50-1">O objetivo é concentrar os atendimentos de saúde de complexidade intermediária, compondo uma rede organizada em conjunto com a atenção básica, atenção hospitalar, atenção domiciliar e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU 192.</cite>.

Se essa jornada funciona sempre da forma prevista na prática cotidiana é uma pergunta mais difícil de responder com dados públicos. Não foram localizadas, nas fontes oficiais consultadas, séries históricas publicadas sobre tempo médio de espera por consulta especializada ou exame complementar no SUS municipal de São Bernardo — informação que, em geral, fica concentrada em sistemas internos de regulação e não é divulgada de forma sistemática e comparável ano a ano. A ausência desse dado público é, em si, uma informação relevante: significa que o cidadão comum — e o jornalista — têm acesso limitado a uma métrica central para avaliar a real capacidade de resposta do sistema, ainda que a estrutura formal da rede (UBS, UPA, regulação, hospitais) esteja bem descrita nos canais institucionais.

4. Os hospitais e a estrutura de alta complexidade

O núcleo da assistência hospitalar pública de São Bernardo do Campo é o Complexo Hospitalar Municipal (CHMSBC), formado hoje pelo Hospital de Clínicas Municipal (HC), pelo Hospital de Urgência (HU), pelo Hospital Anchieta (HA) e pelo Hospital da Mulher — este último originado do antigo Hospital Municipal Universitário (HMU)<cite index="22-1">O Complexo Hospitalar de São Bernardo do Campo é formado pelo Hospital de Clínicas Municipal (HC), Hospital Anchieta (HA), Hospital Municipal Universitário (HMU), Hospital e Pronto-Socorro Central (HPSC) e Hospital de Urgência (HU).</cite>. A gestão do complexo é feita em parceria entre a Prefeitura e a Fundação do ABC (FUABC), entidade filantrópica ligada à Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), fundada em 1967 pelos três municípios fundadores da região — Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul — para viabilizar uma escola médica regional.

Cada unidade do complexo tem um perfil assistencial definido. O Hospital de Clínicas concentra cirurgias e internações de média e alta complexidade, incluindo cirurgias ortopédicas de urgência e cuidado a pacientes politraumatizados<cite index="24-1">O HC realiza procedimentos cirúrgicos em mais de 10 especialidades médicas, entre elas cirurgias de urgência ortopédicas e do paciente politraumatizado</cite>. O Hospital de Urgência, inaugurado durante a pandemia de Covid-19 e definitivamente incorporado à rede a partir de agosto de 2021, funciona como referência para acidentes e politraumatismos, com 250 leitos hospitalares entre adultos e pediátricos, atendendo especialidades como Pediatria, Clínica Médica, Ortopedia, Cirurgia Geral, Neurologia, Oftalmologia, Bucomaxilo, Nefrologia, Cirurgia Pediátrica e Psiquiatria<cite index="25-1">O HU é um hospital referenciado, conta com 250 leitos hospitalares adultos e pediátricos, com atendimento nas especialidades de Pediatria, Clínica Médica, Ortopedia, Cirurgia Geral, Neurologia, Oftalmologia, Bucomaxilo, Nefrologia, Cirurgia Pediátrica e Psiquiatria.</cite>. O Hospital Anchieta é a referência oncológica da cidade e de toda a região do Grande ABC, credenciado como Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon)<cite index="24-1">Hospital Anchieta · Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon)</cite> — durante a pandemia, chegou a abrigar temporariamente 1.000 pacientes oncológicos no Hospital de Clínicas, para que a estrutura do Anchieta pudesse ser reformada e ampliada<cite index="20-1">Enquanto durar a quarentena, os 1.000 pacientes oncológicos do Hospital Anchieta estão sendo acolhidos no Hospital de Clínicas, sem prejuízo aos tratamentos.</cite>. Já o Hospital da Mulher concentra ginecologia, obstetrícia e neonatologia, e abriga serviços correlatos como o Banco de Leite Humano, a Casa da Gestante, o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) e o Programa de Atenção às Vítimas de Violência e Abuso Sexual (Pavas)<cite index="24-1">Banco de Leite Humano · Casa da Gestante · Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) Programa de Atenção às Vítimas de Violência e Abuso Sexual (Pavas)</cite>.

O município soma hoje quatro hospitais públicos municipais na configuração mais recente informada pela própria Secretaria de Saúde<cite index="146-1">por contar com uma rede de saúde robusta, com quatro hospitais, duas policlínicas, 35 UBSs, dez UPAs e um PA</cite>, além de manter convênio histórico com a Santa Casa de São Bernardo para ajudar a atenuar o déficit de leitos, e de contar com o Serviço de Atenção Domiciliar (SAD), voltado a pacientes que podem ser cuidados em casa em vez de ocupar leito hospitalar<cite index="25-1">Para atenuar o déficit de leitos hospitalares no município, entre outras providências, a Prefeitura celebrou convênio com o hospital da Santa Casa de São Bernardo, implantou o Programa de Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) e construiu o novo Hospital de Clínicas Municipal.</cite>.

Do lado privado, a cidade tem uma rede consolidada de hospitais que atendem tanto convênios quanto pacientes particulares: o Hospital IFOR, o Hospital Assunção, o Hospital ABC, o Hospital São Bernardo, o Hospital e Maternidade Intermédica ABC e o Hospital Santa Helena são citados como referências por corretoras de planos de saúde que operam na região, ao lado da presença, via seguradoras como a SulAmérica, de hospitais da rede D'Or<cite index="57-1">A rede particular conta com hospitais de referência como: Hospital IFOR, Hospital Assunção, Hospital ABC, Hospital São Bernardo, Hospital e Maternidade Intermédica ABC, Hospital Santa Helena, entre outros.</cite>. Essas instituições cumprem papel de complementação à rede pública: nos casos cobertos por convênio ou pagos diretamente, aliviam parte da pressão sobre hospitais municipais e estaduais, embora o acesso a elas dependa da contratação de plano de saúde ou de capacidade de pagamento particular — o que remete diretamente à discussão sobre desigualdade de acesso tratada mais adiante nesta reportagem.

Um segundo braço da estrutura hospitalar regional, pouco percebido pelo morador comum, é a rede de hospitais-escola vinculada à Fundação do ABC. Somando as unidades que a FUABC administra em toda a região — não apenas em São Bernardo —, a entidade relata realizar uma média de 14,7 milhões de consultas e atendimentos por ano, além de 172 mil cirurgias, 124 mil internações e 26 milhões de exames e procedimentos<cite index="145-1">A Fundação do ABC realiza média de 14,7 milhões de consultas e atendimentos anuais, além de 172 mil cirurgias, 124 mil internações e 26 milhões de exames e procedimentos.</cite>. É importante frisar que esse número é regional — abrange unidades da FUABC em Santo André, São Caetano, Mauá, Diadema e outras cidades, além de São Bernardo — e não deve ser lido como produção exclusiva do município.

5. Consultas com especialistas: onde estão os maiores gargalos?

Esta é, talvez, a pergunta mais difícil de responder com precisão em qualquer cidade brasileira, e São Bernardo do Campo não foge à regra: não existe, nas bases públicas consultadas, um ranking atualizado e específico do município mostrando qual especialidade médica tem a maior fila de espera no SUS local. Esse tipo de informação normalmente fica sob gestão da Central Municipal de Regulação — estrutura que a própria Secretaria de Saúde lista entre seus serviços de apoio à gestão do SUS —, mas não é publicada em boletins abertos e comparáveis.

O que é possível afirmar, a partir do desenho da rede pública, é que a cidade organizou uma estrutura relativamente ampla de portas de entrada para especialidades: o Hospital de Urgência, por exemplo, já concentra atendimento em Pediatria, Clínica Médica, Ortopedia, Cirurgia Geral, Neurologia, Oftalmologia, Bucomaxilo, Nefrologia, Cirurgia Pediátrica e Psiquiatria<cite index="25-1">com atendimento nas especialidades de Pediatria, Clínica Médica, Ortopedia, Cirurgia Geral, Neurologia, Oftalmologia, Bucomaxilo, Nefrologia, Cirurgia Pediátrica e Psiquiatria</cite>, e a cidade também mantém uma Clínica Municipal de Olhos (Doutor Enzo Ferrari), dedicada a oftalmologia, área historicamente sobrecarregada em sistemas públicos brasileiros por causa da alta demanda por cirurgia de catarata e acompanhamento de glaucoma em idosos.

Um indício indireto, mas relevante, sobre onde a cidade está investindo para tentar destravar gargalos de especialistas veio em outubro de 2025, quando a Prefeitura, em parceria com a FMABC, abriu edital para 48 vagas de residência médica distribuídas entre Medicina de Família, Cirurgia Geral, Psiquiatria, Clínica Médica, Pediatria, Anestesiologia, Ginecologia e Obstetrícia e Neurologia<cite index="146-1">São dez vagas para Medicina de Família, seis para Cirurgia Geral, seis para Psiquiatria, seis para Clínica Médica, seis para Pediatria, seis para Anestesiologia, seis para Ginecologia e Obstetrícia e duas para Neurologia.</cite>. A escolha dessas oito áreas — com destaque numérico para Medicina de Família — sugere que a gestão municipal está priorizando o fortalecimento da porta de entrada (atenção básica) e de especialidades associadas a alta demanda estrutural, como psiquiatria, ginecologia-obstetrícia e clínica médica, mais do que especialidades de nicho.

Isso leva à pergunta crítica proposta no roteiro desta reportagem: ter mais médicos formados ou contratados significa, automaticamente, mais acesso? A literatura em saúde coletiva brasileira tende a responder que não necessariamente. O aumento do número de profissionais médicos no Brasil nas últimas duas décadas — puxado pela abertura de dezenas de novos cursos de Medicina — é um fenômeno nacional bem documentado, mas ele convive com concentração desigual de profissionais em regiões e bairros mais ricos, tempo de consulta insuficiente em unidades sobrecarregadas e rotatividade de profissionais em contratos precários. Não há, no material disponível para esta reportagem, um estudo específico sobre a distribuição geográfica de médicos dentro de São Bernardo do Campo — mas o mesmo fenômeno de desigualdade territorial documentado para outros serviços públicos da cidade (educação, segurança, lazer, como será visto na seção 17) é um forte indício de que a distribuição de profissionais de saúde também não é uniforme entre o Centro e bairros periféricos como Montanhão, Alvarenga e Ferrazópolis.

6. O crescimento dos exames e do diagnóstico

O acesso a exames — laboratoriais, de imagem, endoscópicos e cardiológicos — é outro pilar central da saúde contemporânea, e outro ponto em que a transparência de dados municipais específicos é limitada. O Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), mantido pelo Ministério da Saúde, é a base oficial que registra todos os estabelecimentos de saúde do país, públicos e privados, incluindo laboratórios de análises clínicas e clínicas de diagnóstico por imagem, permitindo, em tese, conhecer a "capacidade instalada" de cada município<cite index="113-1">Trata-se do cadastro oficial do Ministério da Saúde (MS) no tocante à realidade da capacidade instalada e mão-de-obra assistencial de saúde no Brasil em estabelecimentos de saúde públicos ou privados, com convênio SUS ou não</cite>. A consulta a essa base, no entanto, exige levantamento unidade por unidade dentro do próprio sistema do CNES, e não há, nas fontes secundárias consultadas para esta reportagem, uma consolidação numérica atualizada e confiável do total de estabelecimentos de diagnóstico exclusivamente em São Bernardo do Campo — motivo pelo qual esta reportagem evita apresentar um número fechado que não pudesse ser verificado com segurança, preferindo registrar a existência da ferramenta e a limitação de acesso a um dado consolidado no momento da apuração.

O que se sabe, de forma qualitativa, é que a cidade oferece exames de imagem e laboratoriais tanto pela rede SUS — via UBS, policlínicas e hospitais — quanto por uma extensa rede privada, que inclui desde grandes laboratórios de diagnóstico com unidades no bairro Assunção até clínicas menores espalhadas pelo território. Iniciativas pontuais da própria Secretaria de Saúde, como a Unidade Móvel de Mamografia, levada a bairros e entidades da cidade durante campanhas como o Outubro Rosa, mostram que a gestão pública recorre a estratégias itinerantes para tentar ampliar o acesso a exames de rastreamento sem depender exclusivamente da capacidade fixa das unidades — uma dessas ações, em outubro de 2025, ofereceu mamografias gratuitas a mulheres do município<cite index="79-1">A ação ofereceu exames gratuitos de mamografia para mulheres domiciliadas no município. A mobilização teve como objetivo reforçar a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama</cite>.

A importância desse tipo de estratégia cresce à medida que a população envelhece: exames de rastreamento — mamografia, colonoscopia, Papanicolau, exames cardiológicos de rotina — são a principal ferramenta para detectar doenças crônicas e câncer em estágio inicial, quando o tratamento tende a ser mais simples, menos custoso e mais eficaz. A literatura científica brasileira sobre rastreamento, porém, também chama atenção para um ponto menos intuitivo: o excesso de exames fora da faixa etária recomendada — fenômeno observado em nível nacional em campanhas de conscientização — pode gerar sobrediagnóstico sem necessariamente reduzir mortalidade, o que reforça a importância de seguir protocolos técnicos (como o rastreamento mamográfico bienal para mulheres de 50 a 69 anos, recomendado pelo Ministério da Saúde) em vez de simplesmente ampliar o volume de exames de forma indiscriminada.

7. O avanço das doenças crônicas

Se há um fio condutor que atravessa toda esta reportagem, é o avanço das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) — hipertensão, diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares e respiratórias crônicas — como principal desafio de saúde pública em cidades brasileiras de porte médio e grande. Os dados mais recentes do Vigitel, sistema de vigilância de fatores de risco do Ministério da Saúde, divulgados no início de 2026 com base em pesquisa de 2024, mostram a dimensão nacional desse fenômeno: a prevalência de excesso de peso entre adultos brasileiros saltou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024, e a obesidade propriamente dita mais que dobrou, passando de 11,8% para 25,7% no mesmo período<cite index="126-1">Diversos indicadores são muito preocupantes, como a prevalência de excesso de peso em adultos, que aumentou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024.</cite>. O diabetes autorreferido também mais que dobrou, de 5,5% para 12,9% da população adulta, e a hipertensão arterial passou de 22,6% para 29,7%, atingindo quase um terço dos adultos do país<cite index="126-1">Hipertensão arterial: a prevalência aumentou de 22,6% em 2006 para 29,7% em 2024, atingindo quase um terço da população adulta.</cite>.

Esses números são nacionais — o Vigitel entrevista moradores das 26 capitais e do Distrito Federal, não incluindo diretamente municípios como São Bernardo do Campo — mas servem como referência de tendência para qualquer grande cidade da Região Metropolitana de São Paulo, sobretudo uma que, como visto, envelhece em ritmo acelerado. Uma notícia relativamente animadora nesse cenário é o crescimento da prática de atividade física: a proporção de adultos que praticam ao menos 150 minutos semanais de exercícios subiu de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024<cite index="126-1">Por outro lado, é importante destacar que a prática da atividade física, de pelo menos 150 minutos semanais, aumentou de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024.</cite> — uma mudança de comportamento que, se sustentada, tende a favorecer indicadores de doenças crônicas nos próximos anos.

Diante desse quadro, a mudança de paradigma mencionada no roteiro original desta reportagem — passar de um modelo reativo, que trata a doença quando ela aparece, para um modelo de acompanhamento contínuo ao longo da vida — não é apenas uma tese teórica: é, na prática, a lógica por trás da Estratégia Saúde da Família e de programas municipais específicos. Em São Bernardo do Campo, esse papel é cumprido, entre outras iniciativas, pelo programa municipal "De Bem com a Vida" (DBV), criado em 2010 e hoje vinculado ao Departamento de Atenção Básica e Gestão do Cuidado da Secretaria Municipal de Saúde<cite index="116-1">O Programa De Bem com a Vida (DBV) é uma iniciativa da Prefeitura de São Bernardo do Campo/SP, criada em 2010 e atualmente vinculada ao Departamento de Atenção Básica e Gestão do Cuidado da Secretaria Municipal de Saúde.</cite>. O programa oferece práticas corporais, atividades integrativas e complementares, culturais e de lazer, integradas a 35 UBS e a quatro polos da Academia da Saúde, além de praças e espaços comunitários. Atualmente conta com 18 educadores sociais atuando junto às equipes de Saúde da Família, alcançando cerca de 2 mil participantes por mês<cite index="116-1">Atualmente, conta com 18 Educadores Sociais que atuam em articulação com as equipes da Estratégia Saúde da Família, ofertando atividades grupais semanais e ações episódicas, alcançando cerca de 2 mil participantes por mês.</cite> — depois de quinze anos de funcionamento contínuo, o programa é hoje citado pelo Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (COSEMS-SP) como experiência consolidada de promoção da saúde na atenção primária.

8. A saúde do coração

Dentro do universo das doenças crônicas, as cardiovasculares merecem destaque próprio por serem, isoladamente, a maior causa de morte no país. Segundo o Ministério da Saúde, infarto, AVC, hipertensão e insuficiência cardíaca, somados, respondem por cerca de 30% de todos os óbitos registrados anualmente no Brasil<cite index="29-1">as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes no Brasil, representando aproximadamente 30% dos óbitos ano</cite>. Levantamentos recentes com base em dados do Registro Civil e do DATASUS mostram que o AVC, especificamente, já supera o infarto agudo do miocárdio em número absoluto de óbitos em diversos períodos analisados: em 2023, foram registrados cerca de 85 mil óbitos por AVC no país, número que se manteve praticamente estável em 2024<cite index="32-1">O AVC consolidou-se como uma das maiores causas de mortalidade no país, ultrapassando em muitos períodos o próprio infarto em número absoluto de óbitos. Em 2023, foram registrados aproximadamente 85 mil óbitos por AVC.</cite>.

O risco de morte por doenças cardiovasculares cresce fortemente com a idade — em 2022, 72,7% das mortes por essas causas no Brasil ocorreram em pessoas com 65 anos ou mais, segundo o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DATASUS)<cite index="28-1">A prevalência, assim como a mortalidade por doenças do aparelho circulatório, aumenta conforme a idade, e é mais alta acima de 65 anos. Em 2022, 72,7% das mortes no Brasil corresponderam a essa faixa etária</cite> — o que reforça, mais uma vez, por que o envelhecimento acelerado de São Bernardo do Campo (com quase 155 mil moradores hoje na faixa de 60 anos ou mais) deve ser lido como fator de pressão direta sobre a demanda por cardiologia, tanto na atenção básica quanto na rede hospitalar.

Hipertensão, diabetes, obesidade e sedentarismo são, em conjunto, os principais fatores de risco modificáveis para infarto e AVC — e é justamente sobre esses quatro fatores que atuam tanto o programa "De Bem com a Vida" quanto o acompanhamento de rotina feito pelas equipes de Saúde da Família nas UBS da cidade. A prevenção primária (controle de pressão, glicemia e peso) e o diagnóstico precoce, por meio de exames cardiológicos de rotina como eletrocardiograma e, quando indicado, ecocardiograma, seguem sendo, segundo consenso da cardiologia brasileira, as estratégias mais custo-efetivas para reduzir a mortalidade cardiovascular — mais até do que a capacidade de resposta emergencial, embora esta também seja fundamental nos casos agudos, como os atendidos pelo Hospital de Urgência e pelo SAMU 192 da cidade.

9. Câncer: o desafio do diagnóstico precoce

O câncer é a segunda maior causa de morte entre as doenças crônicas não transmissíveis no Brasil, respondendo por cerca de 16% dos óbitos totais do país, segundo dados do Ministério da Saúde compilados pela Sociedade Brasileira de Cardiologia em seu levantamento sobre estatísticas de doenças não transmissíveis<cite index="30-1">72% das mortes resultam de DNC, sendo 30% devidas a DCV e 16% a neoplasias</cite>. Em São Bernardo do Campo, a resposta institucional a essa realidade está concentrada no Hospital Anchieta, credenciado como Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) e descrito pela própria Prefeitura como referência não apenas municipal, mas de todo o Grande ABC<cite index="26-1">O Hospital Anchieta (HA) é referência no tratamento oncológico para São Bernardo e todo o Grande ABC.</cite>.

Entre os tumores mais relevantes para a saúde pública, o câncer de mama ocupa posição central na agenda de rastreamento da cidade. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) projeta 73.610 novos casos de câncer de mama no Brasil em 2025, tornando-o o tipo de câncer mais incidente entre mulheres, à frente do câncer de pele não melanoma<cite index="79-1">o Brasil deve registrar 73.610 novos casos de câncer de mama em 2025</cite>. Em resposta, a Secretaria de Saúde de São Bernardo promove ações itinerantes de rastreamento, como a Unidade Móvel de Mamografia que percorreu entidades e bairros da cidade durante a campanha Outubro Rosa de 2025, oferecendo exames gratuitos a mulheres domiciliadas no município<cite index="79-1">Em apoio à campanha Outubro Rosa, o Mesc recebeu nos dias 27 e 28 de outubro a Unidade Móvel de Mamografia, uma iniciativa da Secretaria de Saúde da Prefeitura de São Bernardo do Campo.</cite>.

A ciência que sustenta essas campanhas de rastreamento é, no entanto, mais complexa do que a mensagem simplificada costuma sugerir. Estudos brasileiros publicados em periódicos como os Cadernos de Saúde Pública alertam que campanhas amplamente divulgadas, como o Outubro Rosa, podem gerar picos sazonais de procura por mamografia fora da faixa etária tecnicamente recomendada, resultando em sobrediagnóstico — a identificação de tumores que, clinicamente, talvez nunca chegassem a causar sintomas ou morte, mas que uma vez detectados levam a tratamentos com efeitos colaterais reais<cite index="80-1">Contudo, estudos recentes têm relacionado o aumento do rastreamento com uma maior morbimortalidade em razão do sobrediagnóstico e do sobretratamento.</cite>. Isso não invalida a importância do rastreamento — ao contrário, reforça a necessidade de que ele seja feito de forma técnica, dentro da faixa etária e periodicidade recomendadas pelo Ministério da Saúde (mamografia bienal entre 50 e 69 anos, no caso do câncer de mama), e não apenas como resposta a campanhas de comunicação.

O tempo entre a suspeita clínica, a realização do exame, o diagnóstico e o início do tratamento é reconhecido, em todo o país, como um dos principais determinantes do prognóstico oncológico — quanto mais rápido esse percurso, maiores as chances de tratamento bem-sucedido e menor o custo assistencial. A legislação federal (Lei nº 12.732/2012) prevê que pacientes com diagnóstico de câncer confirmado no SUS devem iniciar o primeiro tratamento em até 60 dias. Não foram localizados, para esta reportagem, dados públicos consolidados que permitam avaliar se esse prazo legal vem sendo cumprido especificamente em São Bernardo do Campo — trata-se de uma lacuna de transparência que, em geral, se repete na maioria dos municípios brasileiros, e que mereceria acompanhamento mais próximo por parte do Conselho Municipal de Saúde e da sociedade civil organizada.

10. Saúde da mulher em São Bernardo do Campo

A estrutura assistencial dedicada à saúde da mulher em São Bernardo do Campo está hoje concentrada, sobretudo, no Hospital da Mulher, unidade do Complexo Hospitalar Municipal que reúne obstetrícia, ginecologia e neonatologia, além de serviços de apoio como o Banco de Leite Humano, a Casa da Gestante e o Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM)<cite index="24-1">Banco de Leite Humano · Casa da Gestante · Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (CAISM) Programa de Atenção às Vítimas de Violência e Abuso Sexual (Pavas) Pronto-Socorro Obstétrico e Ginecológico · Rede Cegonha</cite>. A cidade também mantém um Pronto-Socorro Obstétrico e Ginecológico específico e integra a Rede Cegonha, estratégia federal voltada a garantir acompanhamento adequado durante gravidez, parto e puerpério, além de um programa dedicado ao atendimento a vítimas de violência e abuso sexual (Pavas), reconhecendo que a saúde da mulher envolve também questões de proteção e não apenas assistência clínica.

O resultado mais expressivo divulgado recentemente pela gestão municipal nessa área foi o fechamento do ano de 2025 sem nenhum registro de morte materna evitável, atribuído pela diretoria técnica do Hospital da Mulher à integração entre a atenção básica e a maternidade de referência<cite index="40-1">As ações implementadas em 2025 fortaleceram a linha de cuidado materno, integrando prevenção, diagnóstico precoce e resposta qualificada às emergências obstétricas.</cite>. É um resultado relevante justamente porque a mortalidade materna é historicamente um dos indicadores mais sensíveis a falhas de acesso e qualidade assistencial: pesquisas acadêmicas sobre a região do Grande ABC, publicadas ainda na década de 2010 pela Revista da Associação Médica Brasileira, mostraram que a razão de mortalidade materna variava entre os sete municípios da região, e que diferentes metodologias de contagem (comitês locais de estudo de mortalidade materna versus estatísticas oficiais da Fundação Seade) apontavam números distintos para o mesmo fenômeno — um lembrete de que indicadores de saúde materna exigem monitoramento contínuo e comparação cuidadosa entre fontes<cite index="37-1">Observam-se diferenças entre os coeficientes de mortalidade materna para os municípios de Diadema, São Bernardo do Campo, Santo André e DIR II, sendo os coeficientes calculados pelo CEMM maiores do que os fornecidos pelo SEADE</cite>.

A mamografia e o rastreamento do câncer de colo do útero (Papanicolau) seguem como as principais ferramentas de prevenção oncológica ofertadas às mulheres pela rede pública, complementadas por ações extramuros como a Unidade Móvel de Mamografia mencionada anteriormente. Do ponto de vista da saúde reprodutiva mais ampla — planejamento familiar, climatério e menopausa, saúde mental perinatal —, a estrutura descrita nos canais oficiais da Secretaria de Saúde concentra-se prioritariamente no ciclo gravídico-puerperal; não foram identificados, nas fontes consultadas, programas municipais específicos e amplamente divulgados voltados a climatério e menopausa, o que sugere uma possível lacuna a ser monitorada à medida que a população feminina da cidade também envelhece.

11. Saúde da criança e do adolescente

A infância e a adolescência seguem sendo prioridade declarada da política de saúde municipal, ainda que — como mostrado na seção 2 — a proporção de crianças e adolescentes na população total da cidade venha caindo relativamente à de idosos. A cobertura vacinal, historicamente um dos indicadores mais monitorados no Brasil, é acompanhada pela Secretaria de Saúde por meio do calendário nacional de imunizações, aplicado nas UBS; não foram localizados, nas fontes públicas consultadas para esta reportagem, boletins recentes e específicos de São Bernardo do Campo detalhando taxas de cobertura vacinal por imunobiológico — um dado que, em nível nacional, tem sido motivo de preocupação do Ministério da Saúde diante da queda geral das taxas de vacinação infantil observada no Brasil na última década.

A mortalidade infantil da cidade, de 8,62 óbitos por mil nascidos vivos em 2025 segundo o IBGE<cite index="2-1">Infant Mortality · 8,62 deaths per 1,000 live births [2025]</cite>, é um indicador historicamente sensível à qualidade do pré-natal, da assistência ao parto e dos primeiros cuidados neonatais — áreas em que o Hospital da Mulher, com seu Banco de Leite Humano e seus serviços de neonatologia, concentra parte importante da resposta assistencial da cidade.

Na obesidade infantil, tema citado no roteiro original desta reportagem como um dos desafios crescentes, os dados nacionais do Vigitel confirmam a tendência de aumento do excesso de peso em todas as faixas etárias adultas — de 42,6% para 62,6% entre 2006 e 2024<cite index="126-1">Diversos indicadores são muito preocupantes, como a prevalência de excesso de peso em adultos, que aumentou de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024.</cite> —, mas o Vigitel, por desenho metodológico, entrevista apenas adultos, não crianças. Para o público infantil, o principal sistema de monitoramento nacional é o SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), citado por plataformas especializadas em indicadores de primeira infância como fonte primária de dados sobre peso ao nascer e estado nutricional infantil no município<cite index="41-1">Fonte: SISVAN - Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (2024)</cite> — mas, novamente, não foi possível localizar, para esta reportagem, uma consolidação numérica pública e recente específica de São Bernardo do Campo sobre obesidade infantil, o que limita a possibilidade de afirmar com precisão a dimensão do problema na cidade.

No campo da saúde mental infantojuvenil, a cidade conta com estrutura dedicada dentro da própria rede de saúde mental: o CAPS II Infantil e o CAPS AD III Infantojuvenil, voltados especificamente ao atendimento psicossocial e ao tratamento de uso abusivo de álcool e outras drogas entre crianças e adolescentes<cite index="46-1">Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) CAPS II Infantil · CAPS III Alvarenga · CAPS III Centro · CAPS III Farina · CAPS III Rudge Ramos · CAPS III Selecta · Centros de Atenção Psicossocial - Álcool e Outras Drogas (CAPS AD) CAPS AD III Alvarenga · CAPS AD III Centro · CAPS AD III Infantojuvenil</cite>, reconhecendo uma tendência nacional de aumento da demanda por saúde mental também entre os mais jovens.

12. O envelhecimento da população

Voltamos, nesta seção, ao dado que talvez melhor resuma o desafio central da saúde em São Bernardo do Campo para a próxima década: o salto da população de 60 anos ou mais, de 10,2% em 2010 para 19% em 2022 — quase 155 mil pessoas<cite index="7-1">Comparando com 2010, a estrutura demográfica de São Bernardo do Campo era significativamente diferente. Naquela época, pessoas com 60 anos ou mais compunham 10,2% da população total, segundo o IBGE.</cite>. Esse ritmo de envelhecimento é mais rápido do que a média histórica nacional e reflete tanto o aumento da expectativa de vida quanto a redução da taxa de natalidade observada em praticamente todo o Brasil urbano.

Segundo dados da Fundação Seade, baseados no Censo de 2010 e divulgados pela própria Prefeitura, a expectativa de vida ao nascer em São Bernardo do Campo era de 80,14 anos para mulheres e 72,44 anos para homens — uma diferença de quase oito anos entre os sexos<cite index="99-1">a expectativa de vida das pessoas de sexo feminino, ao nascer, é de 80,14 anos em média, frente a 72,44 anos para o sexo masculino, uma diferença de quase 8 anos</cite>. Os mesmos dados revelam uma desigualdade racial na longevidade: a expectativa de vida da população negra era de 75,44 anos, quase três anos a menos que a da população branca, de 78,29 anos<cite index="99-1">a esperança de vida dos negros está em 75,44 anos, quase 3 anos a menos da expectativa de vida das pessoas brancas, que é de 78,29 anos em média</cite>. Embora esses números sejam de 2010 — o Censo de 2022 ainda não havia, até o fechamento desta reportagem, produzido uma atualização municipal amplamente divulgada desse recorte específico —, eles ilustram um padrão de desigualdade que a literatura de saúde coletiva associa a determinantes sociais como renda, escolaridade e acesso historicamente desigual a serviços de saúde.

O envelhecimento populacional pressiona a rede de saúde em múltiplas frentes simultâneas: aumenta a demanda por geriatras, cardiologistas e neurologistas (por causa de doenças como demência, Parkinson e sequelas de AVC); eleva a procura por fisioterapia e reabilitação; amplia a necessidade de cuidados contínuos para doenças como osteoporose e perda de mobilidade; e tende a elevar o uso de exames de imagem e acompanhamento cardiológico de rotina. Não foi localizado, nas fontes públicas consultadas para esta reportagem, um programa municipal batizado especificamente como "linha de cuidado ao idoso" ou equivalente com ampla divulgação — o que não significa necessariamente ausência de ações nessa área dentro da atenção básica, mas indica, ao menos, uma oportunidade de comunicação mais clara da Secretaria de Saúde sobre políticas voltadas à população idosa, num momento em que ela já representa quase um quinto dos moradores da cidade.

A telemedicina e o cuidado domiciliar — como o Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) já operado pela Prefeitura para desafogar leitos hospitalares<cite index="25-1">implantou o Programa de Serviço de Atenção Domiciliar (SAD)</cite> — despontam como ferramentas com potencial de suavizar parte dessa pressão, especialmente para pacientes idosos com mobilidade reduzida, tema que será retomado na seção 14.

13. Saúde mental

A rede de saúde mental de São Bernardo do Campo é uma das mais estruturadas do estado de São Paulo, resultado de um processo de reorganização iniciado ainda no início dos anos 2010. Em 2012, o então secretário de Saúde do município, Arthur Chioro — que anos depois viria a ser ministro da Saúde do governo federal —, descreveu, em entrevista ao Jornal GGN, a cidade construindo uma rede de cinco CAPS para atender cerca de 4.500 pacientes, como parte de um processo de desativação progressiva do único hospital psiquiátrico da cidade, que ainda mantinha 380 leitos<cite index="45-1">No total, serão cinco CAPS funcionando em todas as regiões do município, para atender à demanda de cerca de 4.500 pacientes. A pressa se explica: para que o único hospital psiquiátrico que existe em São Bernardo seja desativado de vez, ainda é preciso fechar 120 dos 380 leitos do prédio.</cite>. Esse processo se insere na lógica nacional da Reforma Psiquiátrica brasileira, que busca substituir a internação de longa permanência em hospitais psiquiátricos por uma rede territorial de cuidado — os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Mais de uma década depois, a rede se ampliou e se especializou. Hoje, São Bernardo do Campo conta com seis CAPS regulares — CAPS III Alvarenga, CAPS III Centro, CAPS III Farina, CAPS III Rudge Ramos, CAPS III Selecta e CAPS II Infantil —, além de três unidades voltadas especificamente ao tratamento de dependência química: CAPS AD III Alvarenga, CAPS AD III Centro e CAPS AD III Infantojuvenil<cite index="46-1">Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) CAPS II Infantil · CAPS III Alvarenga · CAPS III Centro · CAPS III Farina · CAPS III Rudge Ramos · CAPS III Selecta · Centros de Atenção Psicossocial - Álcool e Outras Drogas (CAPS AD) CAPS AD III Alvarenga · CAPS AD III Centro · CAPS AD III Infantojuvenil</cite>. A rede se completa com um Pronto Atendimento de Psiquiatria específico, localizado na Vila Euclides<cite index="48-1">Pronto Atendimento de Psiquiatria Rua Pedro Jacobucci, 470 - Vila Euclides</cite>, com Residências Terapêuticas — moradias assistidas para pacientes egressos de longas internações psiquiátricas, como a Casa das Violetas e a Casa das Estrelas<cite index="48-1">Residência Terapêutica Feminina I (Casa das Violetas) Bairro: Jardim do Mar · Residência Terapêutica Feminina II (Casa das Estrelas) Bairro: Jardim Três Marias</cite> — e com iniciativas de geração de renda e cultura, como o Núcleo de Trabalho e Arte (Nutrarte) e o projeto "Remando Para a Vida"<cite index="46-1">Núcleo de Trabalho e Arte (Nutrarte) Remando Para a Vida</cite>.

O acesso à rede de saúde mental especializada é feito, oficialmente, por encaminhamento da Rede de Atenção à Saúde do município ou por procura espontânea diretamente a um CAPS — mas a própria Secretaria de Saúde faz questão de esclarecer que casos de transtornos mentais leves a moderados devem ser resolvidos na atenção básica, pelas UBS, sendo os CAPS reservados aos casos mais severos<cite index="47-1">Ressalta-se que os casos de transtornos mentais leves a moderados são atendidos pela Atenção Básica, através das Unidades Básicas de Saúde (UBS), sendo direcionados às unidades especializadas apenas os casos mais severos.</cite>. Essa divisão de fluxo é tecnicamente correta e segue diretrizes nacionais — mas também expõe, indiretamente, a pressão que recai sobre a atenção básica: se a demanda por saúde mental cresce, como mostram indicadores nacionais recentes (o SUS registrou 192 mil atendimentos de saúde mental por telemedicina apenas no primeiro semestre de 2025, em franco crescimento<cite index="140-1">O SUS realizou 192 mil atendimentos em saúde mental no primeiro semestre de 2025, um cre</cite>), são justamente as UBS — já responsáveis por hipertensão, diabetes, pré-natal e uma extensa lista de outras demandas — que precisam absorver boa parte desse aumento antes de qualquer encaminhamento a um CAPS.

Não foram localizados dados públicos recentes e específicos de São Bernardo do Campo sobre número total de atendimentos de saúde mental por ano ou sobre tempo de espera para primeira consulta em CAPS — uma lacuna de transparência que, mais uma vez, se repete em relação a outros temas desta reportagem, e que reforça a importância de bases de dados abertas e atualizadas em nível municipal para o acompanhamento público dessa política.

14. Telemedicina e saúde digital

A telemedicina deixou de ser uma experiência emergencial da pandemia de Covid-19 para se tornar, no Brasil, uma modalidade assistencial permanente, regulamentada pela Lei Federal nº 14.510/2022 e pela Resolução nº 2.314/2022 do Conselho Federal de Medicina (CFM)<cite index="139-1">Atualmente, a prática da telemedicina no Brasil está regulamentada na lei 14.510/22, que autoriza e disciplina a prática da telessaúde em todo o território nacional.</cite>. O crescimento do setor tem sido acelerado: entre 2023 e 2024, a plataforma Doctoralia registrou aumento de 57% nos agendamentos de teleconsulta, chegando a um recorde de 3 milhões de atendimentos agendados por ano, uma média de 270 mil por mês<cite index="139-1">De 2023 a 2024, Doctoralia registrou um crescimento de 57% nos agendamentos de consultas por telemedicina, chegando ao recorde de 3 milhões no último ano – uma média de 270 mil teleatendimentos agendados por mês.</cite>. Em termos de mercado, o setor de telemedicina no Brasil foi avaliado em US$ 2,4 bilhões em 2025, com projeção de alcançar US$ 12,9 bilhões até 2034, segundo estimativas do IMARC Group<cite index="140-1">O mercado brasileiro de telemedicina foi avaliado em US$ 2,4 bilhões em 2025 e as projeções apontam para US$ 12,9 bilhões até 2034, com crescimento anual composto de mais de 20%</cite>.

Dentro do próprio SUS, a incorporação da telessaúde já é significativa: em 2023, 77,8% dos estados brasileiros já integravam telemedicina ao sistema público por meio de diferentes plataformas digitais<cite index="140-1">Em 2023, 77,8% dos estados brasileiros já integravam telemedicina ao SUS via diferentes plataformas digitais.</cite>, e a saúde mental desponta como uma das áreas de maior crescimento de demanda por atendimento remoto no sistema público, como mencionado na seção anterior. Não foram localizadas informações públicas específicas sobre iniciativas formais de telemedicina dentro da rede municipal de São Bernardo do Campo — ou seja, não é possível afirmar, com base nas fontes consultadas, se e como a Secretaria de Saúde do município já incorporou teleconsultas ou telemonitoramento à sua rede de UBS, UPAs ou hospitais.

O potencial da tecnologia para reduzir barreiras de acesso é real, sobretudo para pacientes idosos com mobilidade reduzida (grupo que já soma quase 155 mil pessoas na cidade) e para o acompanhamento de doenças crônicas, que exige contato frequente, mas nem sempre presencial, entre paciente e equipe de saúde. Ao mesmo tempo, especialistas e reguladores apontam riscos que não podem ser ignorados: exclusão digital de parte da população idosa, menos familiarizada com aplicativos e videochamadas; questões de qualidade do atendimento à distância em comparação ao presencial — o próprio relator da resolução do CFM que regulamenta a telemedicina no país afirmou que a consulta presencial "permanece como padrão ouro" de referência no atendimento ao paciente<cite index="135-1">a consulta médica presencial permanece como padrão ouro, ou seja, referência no atendimento ao paciente</cite> —; e exigências crescentes de segurança de dados, com as novas plataformas de telessaúde precisando se adequar tanto à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) quanto, a partir de 2026, à integração obrigatória com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS)<cite index="137-1">A telemedicina se consolida em 2026, com novas exigências de integração à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e reforço de conformidade com a LGPD.</cite>.

15. O crescimento da saúde privada e da saúde acessível

Entre o SUS, de um lado, e os planos de saúde tradicionais, de outro, cresce no Brasil um terceiro modelo de acesso à saúde: serviços pagos diretamente pelo paciente, muitas vezes com desconto sobre o valor de tabela, oferecidos por clínicas populares, redes de descontos, marketplaces de saúde e plataformas de telemedicina avulsa. Esse fenômeno responde, em boa medida, a uma limitação estrutural do mercado de planos de saúde brasileiro: apesar do crescimento recente, a cobertura da saúde suplementar segue concentrada em uma minoria da população. Em maio de 2026, o Brasil somava 53,1 milhões de vínculos em planos médico-hospitalares, o equivalente a uma taxa de cobertura de 25% da população nacional — ou seja, três em cada quatro brasileiros seguem fora da saúde suplementar<cite index="67-1">O Brasil chegou a maio de 2026 com 53,1 milhões de vínculos em planos médico-hospitalares e uma taxa de cobertura de 25% da população. Na prática, 3 em cada 4 brasileiros continuam fora da saúde suplementar.</cite>. Pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) com a população não coberta mostra que o principal obstáculo não é falta de interesse: 53% dos entrevistados consideram o preço muito alto e 49% dizem não ter condição financeira de pagar um plano<cite index="67-1">53% dos não beneficiários consideram o preço muito alto, 49% dizem não possuir condições financeiras para pagar</cite>.

São Paulo é, disparadamente, o estado com maior cobertura de planos de saúde do país — 39,8% da população em janeiro de 2025, segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, quase o dobro da média nacional<cite index="64-1">O Estado detém uma taxa de cobertura (percentual do total da população que conta com o benefício do plano de saúde,) de 39,8%, enquanto a média nacional é de 24,6%.</cite>, puxada justamente por regiões metropolitanas de alta renda formal como o ABC Paulista, onde grandes empregadores industriais historicamente oferecem plano de saúde como benefício corporativo. Ainda assim, mesmo em São Paulo, quase seis em cada dez moradores permanecem sem cobertura privada — o que ajuda a explicar por que São Bernardo do Campo concentra, ao mesmo tempo, uma rede relativamente robusta de operadoras (Unimed, Amil, SulAmérica, Bradesco Saúde, Porto Seguro, entre outras) e uma parcela significativa da população dependente exclusivamente do SUS ou de soluções intermediárias.

É justamente nesse espaço entre o SUS e o plano de saúde tradicional que crescem, em todo o país, redes de descontos e plataformas de acesso à saúde a preço reduzido — modelo do qual a SPASS, plataforma de descontos em consultas e exames que atua em diversas cidades brasileiras, é um exemplo entre outros que operam nesse mercado emergente. Esse tipo de serviço não substitui o plano de saúde tradicional nem o SUS: funciona como um método de acesso a uma rede de clínicas, laboratórios e profissionais parceiros, com desconto sobre o valor pago diretamente pelo próprio paciente ao prestador — modelo diferente tanto da cobertura integral (típica de planos de saúde) quanto da gratuidade (típica do SUS). O crescimento desse mercado intermediário reflete, sobretudo, a combinação entre uma população que valoriza cada vez mais o acesso rápido a consultas e exames e uma renda familiar que, na maior parte dos casos, não comporta a mensalidade de um plano de saúde tradicional — fenômeno que tende a se intensificar à medida que o envelhecimento populacional aumenta a demanda por cuidados de saúde em todas as faixas de renda.

16. A economia da saúde em São Bernardo do Campo

Medir com precisão o tamanho do setor de saúde como atividade econômica em um único município brasileiro é, reconhecidamente, uma tarefa difícil — não existe, nas estatísticas oficiais consultadas, um recorte consolidado e atualizado que separe, por exemplo, quanto do PIB de R$ 88.766,77 per capita registrado por São Bernardo do Campo em 2023 corresponde especificamente a hospitais, clínicas, laboratórios, indústria farmacêutica e serviços correlatos de saúde. O que é possível afirmar, com base nos dados disponíveis, é que o setor de serviços — categoria ampla que inclui a saúde privada — já responde pela maior fatia da economia municipal: entre 63,7% e 66,2% do PIB da cidade, a depender do ano de referência, contra cerca de 25% a 28% da indústria<cite index="75-1">O PIB da cidade é de cerca de R$ 72 bilhões de reais, sendo que 63,7% do valor adicionado advém dos serviços, na sequência aparecem as participações da indústria (28,4%)</cite>.

Essa mudança na composição do PIB — de uma cidade historicamente industrial para uma economia cada vez mais baseada em serviços — é coerente com a tendência observada em quase todas as grandes cidades brasileiras nas últimas décadas, e cria espaço para que setores como saúde, educação e tecnologia ganhem peso relativo mesmo em municípios de forte tradição fabril como São Bernardo. A cidade mantém, ao mesmo tempo, cerca de 282,6 mil empregos formais registrados, com remuneração média de R$ 4 mil — acima da média estadual de R$ 3,9 mil, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) compilados por observatório especializado<cite index="75-1">O município possui 282,6 mil empregos com carteira assinada... A remuneração média dos trabalhadores formais do município é de R$ 4 mil, valor acima da média do estado, de R$ 3,9 mil.</cite> — um indicador indireto, mas relevante, do poder de compra que sustenta tanto a demanda por planos de saúde corporativos quanto por serviços de saúde pagos diretamente pelo paciente.

O ecossistema de saúde da cidade combina, portanto, diferentes camadas econômicas: a folha de pagamento pública da Secretaria Municipal de Saúde e do Complexo Hospitalar Municipal (mantido em parceria com a Fundação do ABC); os empregos gerados pelos hospitais e clínicas privadas listados na seção 4; o ecossistema de ensino médico da FMABC, que forma médicos e outros profissionais de saúde para toda a região; e o mercado emergente de operadoras de planos, laboratórios de diagnóstico e plataformas de acesso a preços reduzidos mencionado na seção anterior. Sem um número consolidado e confiável sobre o tamanho exato desse conjunto em termos de faturamento ou empregos diretos, esta reportagem opta por descrever a estrutura, em vez de atribuir um valor de mercado não verificável.

17. Desigualdade geográfica

Se há um ponto em que os dados públicos de São Bernardo do Campo são particularmente reveladores — embora nem sempre voltados diretamente para a área de saúde —, é a desigualdade territorial entre o Centro e bairros periféricos da cidade. Um levantamento jornalístico local, baseado em dados de ocorrência e indicadores sociais, mostrou que quatro bairros periféricos — Montanhão, Alvarenga, Ferrazópolis e Grande Assunção — concentram juntos cerca de 271,4 mil habitantes, o equivalente a um terço da população total da cidade<cite index="90-1">Entre os bairros mais violentos, destacam-se Montanhão, Alvarenga, Ferrazópolis e Grande Assunção. Essas quatro regiões, que somam uma população de aproximadamente 271,4 mil pessoas, ou seja, um terço da população total de São Bernardo</cite>. Apesar de abrigarem essa fatia expressiva da população, essas regiões enfrentam desigualdade documentada no acesso a equipamentos públicos: o mesmo levantamento aponta que os quatro bairros somam 78 escolas — 23% do total de 337 unidades de ensino da cidade —, mas com concentração de mais de 4 mil alunos por unidade em locais como Alvarenga e Montanhão, contra cerca de 2 mil alunos por escola em bairros centrais como Centro e Independência<cite index="90-1">Os quatro bairros possuem 78 escolas, representando 23% das 337 unidades de ensino de São Bernardo, mas, em algumas dessas escolas, há mais de 4 mil alunos por unidade, como é o caso do Alvarenga e do Montanhão. Para efeito de comparação, bairros como Centro e Independência possuem 2 mil alunos por escola pública</cite>. Um padrão semelhante se repete em áreas de lazer: os quatro bairros concentram apenas 61 praças, 13% do total de 469 praças da cidade, sendo o caso mais extremo o do Montanhão, com uma única praça pública para atender 119,6 mil moradores<cite index="90-1">A situação das áreas de lazer também é crítica. Esses bairros concentram apenas 61 praças, ou 13% do total de 469 praças espalhadas por toda a cidade. O caso mais grave foi observado no Montanhão, onde há apenas uma praça pública para atender os 119,6 mil moradores.</cite>.

Esses dados não são, tecnicamente, indicadores de saúde — são indicadores de educação, lazer e segurança pública —, mas a literatura de saúde coletiva reconhece esses elementos como determinantes sociais da saúde: bairros com menos áreas verdes tendem a ter menor oportunidade de atividade física ao ar livre; escolas superlotadas e ausência de projetos sociais estão associadas, em diversos estudos brasileiros, a maior vulnerabilidade psicossocial entre crianças e adolescentes; e a concentração de violência — o mesmo levantamento aponta que a faixa etária mais vulnerável à violência na cidade está entre 20 e 29 anos<cite index="90-1">A faixa etária mais vulnerável à violência está entre 20 e 29 anos, e a periferia concentra a maior parte dos crimes relacionados a fatores sociais</cite> — impõe carga direta sobre serviços de urgência e emergência, incluindo o SAMU 192 e as UPAs da cidade.

A própria Prefeitura de São Bernardo do Campo reconhece formalmente essa desigualdade intramunicipal em seus documentos de planejamento. O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS), elaborado pela Fundação Seade com base no Censo Demográfico, é utilizado pela própria gestão municipal para classificar a população de cada bairro segundo o grau de exposição a situações de maior ou menor vulnerabilidade à pobreza<cite index="101-1">O Índice Paulista de Vulnerabilidade Social – IPVS reflete a desigualdade intramunicipal de vulnerabilidade à pobreza com base no rendimento da pessoa de referência do domicílio e características demográficas.</cite>, e perfis socioeconômicos elaborados bairro a bairro pela Secretaria de Obras e Planejamento Estratégico (SOPE) da própria Prefeitura já incorporam esse índice desde pelo menos 2010<cite index="94-1">Tabela 10 - População segundo o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social - IPVS, bairro Centro e total do município de São Bernardo do Campo, 2010</cite>. Um documento oficial da Prefeitura reconhece explicitamente que a cidade precisa considerar "suas desigualdades e fragmentações" e incluir populações que vivem fora do padrão urbano dominante, como os moradores da região do Pós-Balsa — de características rurais — e a população indígena das aldeias Guyrapaju e Kuaray-Rexakã, também localizadas nessa região, que "demandam atendimento especializado"<cite index="103-1">Essencial considerar suas desigualdades e fragmentações, e incluir a população que vive fora do ambiente urbano, como os moradores da região conhecida como Pós-Balsa, que possui características de zona rural, e a população indígena, que vive nas aldeias Guyrapaju e Kuaray-Rexakã, ambas localizadas também na região do Pós-Balsa. Estas populações, demandam atendimento especializado.</cite>.

Ainda assim, é preciso registrar um contraponto relevante: apesar dessas desigualdades internas, São Bernardo do Campo tem obtido avaliações comparativamente positivas em rankings amplos de qualidade de vida. Segundo o Índice de Progresso Social (IPS) 2026, que avalia municípios brasileiros com mais de 500 mil habitantes, a cidade aparece na 4ª posição nacional, com pontuação de 69,92, à frente de metrópoles como São José dos Campos, Guarulhos e Uberlândia, e à frente também de Ribeirão Preto (70,80 pontos, muito próximo) e Campinas (70,00 pontos)<cite index="102-1">Essa avaliação foi realizada com base no Índice de Progresso Social (IPS) 2026, que analisa municípios com mais de 500 mil habitantes. A cidade alcançou uma pontuação de 69,92 pontos, superando outras metrópoles de grande porte como São José dos Campos, Guarulhos e Uberlândia.</cite>. A coexistência entre um bom desempenho médio da cidade e desigualdades internas profundas entre bairros é, na verdade, um padrão comum em municípios grandes e economicamente heterogêneos: médias municipais tendem a esconder disparidades territoriais que só aparecem quando os dados são desagregados por bairro ou por Índice Paulista de Vulnerabilidade Social — exatamente o exercício que a própria Prefeitura já realiza internamente, mas que ainda tem divulgação limitada ao público em geral.

18. São Bernardo do Campo dentro do ABC Paulista

Nenhuma análise da saúde em São Bernardo do Campo está completa sem considerar sua posição dentro do Grande ABC Paulista, região metropolitana composta por sete municípios — Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra —, historicamente integrados tanto pela vocação industrial quanto pela gestão compartilhada de serviços públicos, incluindo a saúde.

São Bernardo é, hoje, a maior colaboradora para o Produto Interno Bruto entre as sete cidades da região<cite index="76-1">PIB – São Bernardo segue como a maior colaboradora do Produto Interno Bruto (PIB) entre as sete cidades do Grande ABC.</cite>, o que lhe confere um papel de âncora regional também no campo da saúde. A Fundação do ABC (FUABC), entidade criada em 1967 pelas prefeituras de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul para viabilizar a criação de uma faculdade de medicina regional<cite index="145-1">a Fundação do ABC foi criada em 1967 pelas cidades de Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, com objetivo de implantar uma faculdade de medicina na região do ABC Paulista</cite>, é hoje o exemplo mais claro dessa integração: administra hospitais em várias cidades da região — incluindo o Hospital Estadual Mário Covas, em Santo André, o Centro Hospitalar de Santo André e unidades em São Caetano do Sul, além do Complexo Hospitalar Municipal de São Bernardo do Campo — e forma médicos por meio da FMABC (Centro Universitário FMABC), cuja rede de hospitais-escola soma cerca de 1.405 leitos distribuídos por sete unidades em toda a região<cite index="142-1">A FMABC tem 1405 leitos (7 hospitais-escola).Os principais são: Hospital Estadual Mário Covas, Hospital de Ensino Padre Anchieta, Hospital Municipal de São Bernardo, Centro Hospitalar de Santo André e o Complexo Hospitalar de São Caetano.</cite>.

Essa integração regional significa, na prática, que pacientes, profissionais e serviços de saúde circulam com frequência entre os sete municípios do ABC — especialmente para tratamentos de maior complexidade, como oncologia de alta complexidade, cirurgias cardíacas ou neurocirurgia, que tendem a se concentrar em um número menor de unidades de referência regional em vez de estarem replicadas em cada cidade. O próprio Hospital Anchieta, referência oncológica de São Bernardo, é descrito pela Prefeitura como referência "para São Bernardo e todo o Grande ABC"<cite index="26-1">O Hospital Anchieta (HA) é referência no tratamento oncológico para São Bernardo e todo o Grande ABC.</cite> — ou seja, atende também pacientes de Santo André, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, com o Hospital de Urgência da cidade também descrito como referência regional para politraumatismos.

Essa lógica regional tem uma implicação direta para qualquer análise isolada da "saúde de São Bernardo do Campo": indicadores de leitos, cirurgias ou consultas realizadas dentro do território do município não capturam totalmente a demanda real, porque parte da capacidade instalada em São Bernardo atende moradores de outras cidades do ABC, ao mesmo tempo em que moradores de São Bernardo eventualmente buscam atendimento em unidades de referência localizadas em Santo André ou na capital paulista, a menos de trinta quilômetros de distância. A proximidade com a cidade de São Paulo — que concentra hospitais de altíssima complexidade, como institutos de referência nacional em cardiologia, oncologia e neurologia — também funciona como válvula de escape para casos que a rede regional do ABC não consegue absorver, embora não existam, nas fontes consultadas, dados públicos que quantifiquem esse fluxo intermunicipal de pacientes de forma sistemática.

19. Os principais desafios para os próximos anos

Reunindo os dados apresentados ao longo desta reportagem, é possível identificar um conjunto relativamente claro de desafios estruturais que devem moldar a agenda de saúde de São Bernardo do Campo na próxima década:

Envelhecimento acelerado. Com quase 155 mil moradores já na faixa de 60 anos ou mais — quase o dobro da proporção registrada em 2010 — e um "pico demográfico" na faixa dos 40 anos que se tornará a próxima geração de idosos, a cidade precisa ampliar a capacidade de geriatria, cardiologia, neurologia, fisioterapia e cuidados domiciliares em ritmo compatível com essa transição, sob pena de a demanda crescer mais rápido do que a oferta de serviços especializados.

Doenças crônicas não transmissíveis em ascensão. Seguindo a tendência nacional documentada pelo Vigitel — obesidade que dobrou desde 2006, diabetes que mais que dobrou, hipertensão atingindo quase um terço dos adultos —, a atenção básica municipal, já responsável por programas como o "De Bem com a Vida", precisará seguir ampliando ações de prevenção e acompanhamento contínuo para conter a pressão futura sobre hospitais e pronto-atendimentos.

Saúde mental sob demanda crescente. A rede de CAPS da cidade é relativamente robusta para os padrões nacionais, mas o crescimento generalizado da procura por saúde mental no país — incluindo o salto nos atendimentos por telemedicina no SUS — sugere que a pressão sobre esse serviço tende a aumentar, especialmente sobre a atenção básica, responsável por absorver os casos leves e moderados antes de qualquer encaminhamento especializado.

Desigualdade territorial dentro do próprio município. Os dados sobre concentração de escolas, praças e indicadores sociais em bairros como Montanhão, Alvarenga, Ferrazópolis e Grande Assunção — que juntos abrigam um terço da população da cidade — sinalizam um padrão de desigualdade intramunicipal que, embora documentado principalmente para educação e segurança nos dados disponíveis, tende a se refletir também no acesso a serviços de saúde, um ponto que mereceria monitoramento mais explícito e publicamente acessível por parte da gestão municipal.

Transparência de dados públicos em saúde. Ao longo desta apuração, um padrão se repetiu: a estrutura formal da rede de saúde de São Bernardo do Campo — número de UBS, UPAs, hospitais, CAPS — é bem documentada e frequentemente atualizada nos canais oficiais da Prefeitura. Já indicadores de desempenho mais sensíveis — tempo de espera por consulta especializada e exame, taxas de mortalidade por causa específica em nível municipal, cobertura vacinal atualizada, indicadores de obesidade infantil — não estão consolidados em bases públicas de fácil acesso. Essa lacuna de transparência limita tanto o controle social quanto a capacidade da imprensa e da sociedade civil de avaliar, com precisão, se a estrutura formal da rede está de fato traduzindo-se em acesso efetivo para a população.

Sustentabilidade do financiamento. Como a maior parte das grandes cidades brasileiras, São Bernardo do Campo enfrenta o desafio estrutural de sustentar uma rede de saúde cada vez mais cara — por causa do envelhecimento populacional, da incorporação de novas tecnologias diagnósticas e terapêuticas e do aumento geral dos custos em saúde — dentro de um orçamento público sujeito às regras fiscais nacionais e à disputa por recursos com outras áreas, como educação e segurança.

Integração entre níveis de atenção e entre municípios do ABC. A dependência mútua entre São Bernardo e as demais cidades do Grande ABC — evidenciada pelo papel regional do Hospital Anchieta e da rede de hospitais-escola da FMABC — reforça a necessidade de que o planejamento de saúde da cidade continue sendo pensado em escala regional, e não apenas municipal, sob pena de investimentos isolados não considerarem o fluxo real de pacientes entre os sete municípios da região.

Saúde em São Bernardo do Campo: o desafio da próxima década

Ao final desta apuração, uma imagem se impõe com mais clareza do que qualquer número isolado: São Bernardo do Campo é, hoje, uma cidade que consolidou, ao longo de décadas, uma estrutura de saúde comparativamente robusta para os padrões brasileiros — uma rede de atenção básica com cobertura estimada acima de 80% da população, um complexo hospitalar público organizado por perfil assistencial (urgência, alta complexidade cirúrgica, oncologia, saúde da mulher), uma rede de saúde mental territorializada que é referência regional desde o início dos anos 2010, e um ecossistema de ensino médico, por meio da FMABC e da Fundação do ABC, que garante renovação constante de profissionais para toda a região do Grande ABC. É uma estrutura que muitas cidades brasileiras de porte semelhante não têm.

Ao mesmo tempo, essa estrutura foi construída, em boa parte, para atender a realidade demográfica e epidemiológica das décadas de 1980, 1990 e 2000 — a cidade operária, jovem, com alta natalidade e mortalidade concentrada em causas infecciosas e materno-infantis. A realidade de 2026 é outra: quase um em cada cinco moradores tem 60 anos ou mais; as doenças crônicas não transmissíveis avançam de forma consistente em todo o país, como mostram os dados do Vigitel; a demanda por saúde mental cresce em ritmo acelerado; e a desigualdade entre o Centro e bairros como Montanhão, Alvarenga e Ferrazópolis — que juntos abrigam um terço da população da cidade — permanece um desafio estrutural, ainda que a cidade tenha alcançado boas posições em rankings amplos de qualidade de vida.

Os próximos dez anos devem ser definidos, portanto, menos pela construção de novos hospitais — embora leitos adicionais provavelmente continuem sendo necessários, sobretudo para geriatria e cuidados intensivos — e mais pela capacidade da gestão municipal de reorganizar fluxos: fortalecer a atenção básica como responsável pelo acompanhamento contínuo das doenças crônicas, ampliar a integração entre saúde física e saúde mental, incorporar telemedicina e cuidado domiciliar de forma criteriosa para atender uma população que envelhece sem sobrecarregar ainda mais hospitais e pronto-atendimentos, e — talvez o ponto mais urgente e menos visível nesta apuração — investir em transparência de dados públicos municipais de saúde, de modo que tempo de espera, cobertura vacinal, mortalidade por causa específica e outros indicadores sensíveis possam ser acompanhados pela população com a mesma clareza com que hoje se acompanha o número de UBS e UPAs inauguradas.

A tese que abriu esta reportagem permanece válida ao final dela: São Bernardo do Campo reúne, de fato, características de uma grande cidade brasileira — estrutura de saúde relevante, inserção em uma das regiões economicamente mais importantes do país, ampla rede de serviços — e, ao mesmo tempo, enfrenta desafios crescentes ligados ao envelhecimento, às doenças crônicas, à saúde mental e à desigualdade de acesso. A diferença entre a cidade que se via nas linhas de montagem dos anos 1960 e a cidade que se vê hoje, atravessada por hospitais especializados, CAPS territorializados e uma população cada vez mais grisalha, é também a diferença entre dois tipos de desafio de saúde pública — e reconhecer essa mudança, com dados e sem alarde, é o primeiro passo para que São Bernardo do Campo consiga cuidar, nas próximas décadas, da população que ela própria ajudou a formar.

Nota

Esta reportagem foi elaborada a partir de pesquisa em fontes públicas e oficiais, incluindo IBGE (Censo Demográfico 2022 e estimativas populacionais), Fundação Seade, Ministério da Saúde (DATASUS, SIM, Vigitel), Instituto Nacional de Câncer (INCA), Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), Prefeitura de São Bernardo do Campo e Secretaria Municipal de Saúde, Fundação do ABC (FUABC) e Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Estado de São Paulo (COSEMS-SP), além de artigos científicos publicados em periódicos indexados (SciELO, Cadernos de Saúde Pública, Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Revista da Associação Médica Brasileira) e reportagens de veículos jornalísticos e institucionais citados ao longo do texto. Em pontos nos quais não foi possível localizar dados municipais consolidados, específicos e atualizados — como tempo de espera por consulta e exame, cobertura vacinal municipal recente, indicadores de mortalidade por causa específica em nível municipal, obesidade infantil e faturamento do setor de saúde privado local —, a reportagem optou por indicar explicitamente essa limitação, em vez de estimar ou extrapolar números não verificados. Dados nacionais e estaduais foram utilizados como referência de tendência nesses casos, sempre identificados como tal, e não como substitutos de estatísticas municipais específicas.

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